Livro de Ficção
O interior dos Estados Unidos, no ano de 2155, já não tinha mais o cheiro de grama molhada que se espalhava depois das tempestades de verão. As árvores eram híbridas, cruzamentos genéticos de espécies extintas, e as crianças não subiam mais em galhos — elas flutuavam em placas antigravitacionais enquanto escutavam histórias contadas por hologramas. Ainda assim, havia lugares onde o tempo parecia desacelerar, como se o futuro tivesse esquecido de tocar com força. E foi exatamente ali, numa casinha cercada por montanhas silenciosas e campos dourados de trigo sintético, que nasceu Elijah.
Elijah não era comum, embora nem ele soubesse disso. Criado longe das metrópoles verticais, seus pais escolheram uma vida simples, isolada da velocidade frenética das megaestruturas que ligavam continentes e buracos de minhoca. Seu pai, um homem de olhar pesado e passado oculto, guardava relíquias como se fossem relíquias sagradas — entre elas, uma caixa metálica, trancada a sete chaves, escondida nos fundos da garagem. Elijah, com seus 14 anos, sempre soube que havia algo especial naquele artefato. Não era apenas uma caixa. Era uma presença. Um chamado.
Certa noite, quando o céu se tingia de cores que desafiavam a lógica — uma mistura de auroras e tempestades iônicas —, Elijah ouviu um som vindo da garagem. Um estalo seco, um chiado elétrico, uma vibração que parecia atravessar os ossos. Ele desceu as escadas, os pés descalços silenciosos no chão de cerâmica, e seguiu o chamado. A caixa estava aberta.
Dentro dela, um dispositivo de aparência rudimentar pulsava com luz azulada. Havia símbolos que não se pareciam com nada que ele tivesse visto nos dicionários digitais. Símbolos que pareciam... vivos. Elijah estendeu a mão, sem pensar. Não foi uma decisão. Foi uma resposta. Uma memória que não era dele. Um destino que o escolheu antes mesmo de seu nascimento.
O tempo não se quebrou. Ele se dobrou.